Meu jeito, meu mundo

Esse blog é como um diário, serve pra expressar pensamentos, angústias, alegrias, tristezas e algumas peculiaridades.

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30.12.07

A História Contada Sem Nome IV

Capítulo 4

       Mel, que já não se cabia mais de tanta ansiedade sentiu seus batimentos cardíacos acelerarem quando viu a frente da escola: era grande, imponente e com arquitetura do período colonial. Via-se de longe que era um colégio particular, pois era muito bem cuidado. A pintura era amarelo claro e as portas e janelas um tom dourado claro. Aparentava ter uns três andares e possuía um estacionamento. Será que seria feliz ou prisioneira naquele lugar? Será que morreria de tanto estudar ( pois a fama do colégio a fazia pensar exatamente isso)?
Desceram do carro, se identificaram ao porteiro e logo entraram, sendo encaminhadas a passar pela secretaria para chegarem a uma sala a qual esperariam pelo chamado da diretora. No trajeto, a menina se encantava mais com a imponência do lugar, que devido ao recesso, estava vazio. Enquanto se encaminhavam até a secretaria, Mel viu um aviso em um mural que chamou sua atenção:

PROCESSO SELETIVO PARA BOLSAS DE ESTUDOS
CANDIDADOS APROVADOS COM BOLSA INTEGRAL:

1º- Lídia Quintanilha Barbosa
2º- Karen Isabela Albuquerque Ramos de Andrade e Silva
3º- Robson Silveira Castro
4º- Evelyn Santos de Almeida Soares
5º- Camila de Oliveira

CANDIDATOS APROVADOS COM BOLSA PARCIAL (50%):

6º- Isabel Miranda Silva
7º -Carlos Eduardo Castro
8º-Matheus Pereira Souza
9º- Carla Cristina Maldonado de Castro
10º -Mariana Alencar Fagundes

-Mãe, olha! Teve prova pra bolsa de estudos! Por que você não me disse, eu ...
-Eu ouvi a respeito, mas a gente tava muito ocupado com a mudança, e quando a prova foi aplicada a gente ainda estava em Minas.
-Hum....-disse Mel, já pensando “nessa escola deve ter só nerd. Essa tal de Lídia deve ser um saco...”
Passaram pela secretaria e chegaram em uma sala branca em que havia pais e filhos esperando para serem chamados. Mel e sua mãe sentaram-se um pouco longe da porta, perto de duas meninas que pareciam conversar fervorosamente. Uma parecendo muito desapontada, enquanto outra parecia consolá-la. Mel sentou do lado de uma delas, e apesar de estarem tomado cuidado para não serem ouvidas, não foi possível não ouvir a conversa.
-Quem essa garota pensa que é pra roubar a MINHA vaga? Era pra EU ser a primeira e não ela!- disse a garota, espumando de raiva.
-Calma. Eu sei que você não gosta de perder, mas não precisa ficar assim. A prova foi realmente concorrida e você conseguiu ficar em segundo lugar, não basta?- disse a amiga em tom de consolo.
-Você já me conhece suficientemente bem pra saber que não me conformo em ser a primeira perdedora.
-Mas, você é muito inteligente e meu pai me disse que nem sempre o primeiro colocado em um processo seletivo é o melhor aluno da sala. Tenho certeza de que você vai ser a melhor.
-Disso também não tenho dúvida.- concluiu, dando uma pequena pausa no que dizia, e retornando segundos depois, parecendo ainda mais injuriada- E se essa tal de Lídia, ousar ao menos tentar atrapalhar meus projetos eu acabo com ela em dois tempos. Fui a primeira colocada em todas as provas pra bolsa que fiz, e justamente na escola em que escolhi estudar acontece isso. - concluiu a menina, ainda chocada.
-Mas, você não precisava dessa bolsa, precisava?- disse a amiga com cautela-. Quer dizer, você tem dinheiro pra estudar na escola que quiser, não precisa estudar de graça.
-Eu sei disso, mas se sou boa o suficiente pra ser bolsista, por que não ser uma? –concluiu a garota, persuasivamente.
Ouvindo essa conversa, Mel estarreceu-se. Se a primeira impressão que teve da escola foi a de uma garota prepotente reclamando por que não foi a primeira colocada no concurso de bolsas da escola, o que ela esperaria dos outros colegas?

-Marcela Charlotte Lima Silveira

Disse uma voz saindo da sala da diretora.
-Vou indo lá amiga, mas vê se melhora essa cara. Valeu por ter vindo comigo, mesmo a entrevista dos bolsistas sendo em outro dia.
-Tá bom, vai lá.
-Ok. Depois tenho que te contar a nova dieta que comecei hoje. Vamo lá mãe...
Depois de se despedir da amiga, a menina se uniu à mãe e juntas entraram na sala da diretora. Ficando agora sozinha do lado da menina, Mel sentiu um misto de indignação e nojo. Com tantas pessoas sem oportunidade, sem dinheiro pra estudar em uma escola tão boa, aquela garota mesmo sem precisar da bolsa estava reclamando em ter passado em segundo lugar. Nesse instante ela virou-se e o seu olhar encontrou com o da menina, que lhe deu um sorriso simpático, como se pra ela estivesse tudo perfeitamente bem. Olhando melhor, nem parecia a menina que há segundos atrás parecia um monstro, pois tinha um ar feliz e aconchegante. Ela era morena de cabelos castanhos e longos, olhos esverdeados e se vestia de um jeito um tanto quanto formal. Mel correspondeu o sorriso e logo a menina iniciou um assunto.
-Tudo bem? –disse a menina amigavelmente estendendo a mão.
-Sim. E você?- retribuiu Mel, apertando a mão da menina.
-Tudo. Essa escola é realmente boa e o ambiente parece muito amigável, não acha? O sistema de ensino é bem condensado e realmente prepara para o vestibular. Três primos meus estudaram aqui e passaram na federal direto. Os professores são muito bons, mas pra mim o professor Nestor de Matemática é o melhor, tem até doutorado na área. E você, escolheu a escola pela grande tradição que ela tem e pela evidente eficiência no sistema acadêmico?- concluiu a menina, não parecendo nem um pouco ofegante.
-Ah, sim. –respondeu a menina, ao mesmo tempo admirada com o conhecimento da menina e confusa com o bombardeio de palavras.- Parece ser mesmo muito boa. Queria ter participado do processo seletivo, mas não deu tempo. Você participou?- disse a menina, querendo testar até onde ia a dissimulação da garota, mas a pergunta pareceu não a ter abalado, pois ela respondeu entusiasmada.
-Ah sim, participei.-disse sorridente, como se aquilo pra ela fosse motivo de muito orgulho- Consegui a segunda colocação. Foi uma prova complexa que realmente exigia conhecimento em exatas e principalmente na área da Língua Portuguesa, como também nas outras matérias, porém em nível inferior. Estou muito ansiosa para o início das aulas, a matéria do primeiro ano é base em qualquer vestibular, não?
-Ahã....-disse Mel, novamente confusa com o novo bombardeio da menina.- Realmente ouvi dizer que o Ensino aqui é muito bom.
-Ah, sim. Temos aulas pela manhã e laboratório a tarde alguns dias da semana. Tem os projetos extras como esportes, teatro, coral, e no final do ano as Olimpíadas Escolares. É um colégio privilegiado. -concluiu a garota, parecendo feliz em saber de tantas informações.
-Olimpíadas Escolares? Nunca ouvi falar...-disse Mel, deixando finalmente transparecer sua falta de conhecimento sobre a escola.
-É um tipo de competição que engloba todas as matérias. Tem a colocação por área academica, colocação geral e individual. Os grupos vencedores participam das olimpíadas com as outras escolas.
-Ah...
Nisso, ouviu-se um ranger de porta e a menina que havia entrado saiu. A mulher novamente saiu e disse um novo nome:

-Melissa Andrada de Melo

-Vamos, Mel!- disse a mãe da menina, apressando-a.
-Bom, tenho que ir! A gente se vê na escola.- disse despedindo-se da menina.
-Sim, querida! Boa sorte!- retribuiu a menina com um grande sorriso.
Então levantou-se e foi em direção á sala da diretoria.

22.12.07

A História Contada Sem Nome III

Capítulo 3

Os dias se passaram, e foram totalmente ocupados com a arrumação da casa nova. Lúcia e Mariano coordenavam todo o trabalho enquanto Mel se ocupava da arrumação de seu novo quarto. Como a menina não gostava que arrumassem suas coisas por ela, ocupou os dias seguintes esvaziando caixas, dobrando roupas e escolhendo a melhor posição para seus móveis. Decidiu que o papel de parede floral permaneceria. Dispôs os móveis de maneira que eles ficassem junto das paredes, de forma a deixar espaço livre para circulação. Quando tinha um tempo livre, pensava na nova escola. Não sabia muitos detalhes, mas a mãe já havia dito que era uma escola muito boa e consequentemente, com um ritmo de estudos muito pesado. Será que as pessoas a esnobariam por ser nova na cidade? Será que só haveriam mauricinhos e patricinhas na escola? Ou então apenas nerds? Como não tinha um padrão definido sobre as escolas de São Paulo, pensamentos como esses iam e vinham em sua mente. Apesar de já ter freqüentado diversas escolas durante o Ensino Fundamental, devido às constantes mudanças de cidade, dessa vez era diferente. A escola devia ser grande e com muitos alunos, pensava. E isso a fazia sentir ainda mais insegura e ao mesmo tempo curiosa.
Após alguns dias, a casa enfim estava arrumada. Estava realmente muito bonita, com um aspecto limpo e muito bem cuidado. Apesar de não ser muito suntuosa, o fato de estar arrumada deixava a deixava com a impressão de ser um lugar grande e bastante confortável para três pessoas. Um dia durante o jantar, finalmente Lúcia voltou a falar sobre a nova escola com a filha:
-Mel, acorde cedo amanhã. Vamos na escola nova fazer sua matrícula.-disse a mãe, num tom um tanto quanto autoritário.
-Mas... por que eu preciso ir junto?- respondeu Mel, transmitindo insegurança na voz.
-Por que a diretora vai entrevistar você. Todos os alunos passam por uma entrevista antes de entrar nessa escola. -respondeu Lúcia, nem imaginando o crescente nervosismo que se instalara em sua filha naquele momento.
-Mas... você nem me disse nada..o quê eu tenho que falar? Que tipo de pergunta vão fazer? Por quê não me falou sobre isso antes?
-Não é nada demais, vão apenas perguntar como foi seu Ensino Fundamental, em quais matérias tem dificuldades, essas coisas...E vai ser até bom por que já vamos pegar a lista de material e comprar seu uniforme. Então, vamos sair daqui mais ou menos umas oito horas, entendeu?
-Mas mãe...tem que ser...-disse a menina, como alguém que quer dizer algo muito importante, mas não encontra as palavras-...não poderia ser...outro dia?
-Claro que não. As entrevistas são agendadas e não dá mais tempo de mudar.- disse a mãe num tom conclusivo.
-Então... tá bom.. -respondeu Mel, tristemente conformada em ter que acatar a ordem de sua mãe-. Pai, você vai com a gente?
Não, não vai dar. Tenho que revisar alguns documentos pro serviço, mas vou estar torcendo por você.-disse o pai sorridente.
-Tá...-aceitou Mel sem opção.- Já instalaram o telefone? E a Internet?
-Ainda não, nenhum dos dois. Devem instalar essa semana. Essa cidade é muito grande, demora mesmo.
-Ah, que pena...-lamentou Mel, vendo seus planos de ligar pra Fernanda e dividir sua angústia indo pro espaço.
Depois do jantar, a menina foi pro quarto e logo dormiu, evitando pensar no desastre que, segundo ela, seria o dia seguinte.
Na manhã do outro dia, acordou bem cedo e não conseguiu dormir mais, de tão ansiosa com a entrevista. Depois de algum tempo pensando em sua cama, levantou e tomou banho. Colocou uma roupa confortável e logo foi para a sala ver televisão, para a hora passar mais rápido. Assim que chegou, encontrou sua mãe ainda de pijamas indo para o banheiro e se espantando em ver a filha arrumada tão cedo. Enquanto Lúcia se arrumava, Mel assistia a televisão, trocando de canal compulsivamente e batendo o pé direito no chão, tentando extravasar tamanha ansiedade. Depois de algum tempo Lúcia chamou pela filha e logo foi tirar o carro da garagem. Vendo o semblante da filha assim que ela entrou no carro, disse:
-Mel, não precisa fazer essa cara. Não vai ser tão difícil como você ta pensando, e no final das contas vai ser melhor pra você conhecer a escola antes do primeiro dia de aula.- concluiu a mãe, tentando consolar a filha. Mas Mel não respondeu, tampouco se animou com o que a mãe lhe disse. Afinal, estava indo pro colégio novo despreparada psicologicamente e nem tinha conseguido falar com Fernanda, coisa que com certeza a teria acalmado. Depois de uns 45 minutos de um trânsito conturbado já nas primeiras horas do dia, finalmente chegaram à escola.

09.12.07

A História Contada Sem Nome II




Capítulo 2:

    Depois de algumas horas, as duas chegaram na nova casa em São Paulo. Certamente era bem maior e confortável do que a de antes, em Uberaba. Tinha um muro verde e um grande portão prateado que dava para a garagem. Á esquerda tinha uma porta também na cor cinza, que dava entrada para o jardim. Este era grande e a grama era muito bem cuidada. Tinha uma churrasqueira no muro de pedras do lado esquerdo e uma ducha no muro em frente. Logo adiante estava a casa: um pouco maior que a antiga, mas ideal para três pessoas viverem bem e com privacidade. A pintura era verde bebê e a porta principal e a janelas eram brancas. Enquanto as duas contemplavam o jardim, os rapazes entravam descarregando a mudança. Nisso, um homem de aparência um tanto quanto cansada, de estatura mediana, cabelo preto com alguns fios grisalhos apareceu à porta.
    -Mel! Lúcia! Enfim vocês chegaram!-disse o homem impaciente.
    -Mariano, a viagem foi longa. E como estão as coisas?- perguntou Lúcia, cumprimentando o marido com um beijo.
    -Está tudo limpo lá dentro, mas vai demorar alguns dias até tudo entrar no lugar! E você, mocinha? Como foi de viagem?- perguntou o pai, dando um forte abraço na filha, como se não a visse há meses.
    -Bem, pai. Mas que casa linda! Ganhou na mega sena e não nos contou, foi?-disse Mel, ainda maravilhada com a beleza do imóvel.
    -Não, não. A casa vai ser quitada em alguns anos. Devemos ficar aqui um bom tempo. Depois que os rapazes terminarem o serviço, vai lá conhecer seu quarto! Tenho certeza de que vai gostar!
    -Se o resto da casa for tão legal quanto o que eu estou vendo até agora, vou sim.
    -Mariano, você já tomou o seu remédio? Com o coração não se brinca! E não diga que não teve tempo e...
    -Calma, Lúcia! Já tomei hoje mais cedo enquanto...
E deixando os pais discutindo sobre o remédio pro coração de Mariano , Mel se afastou e digitou no seu celular:

“Nanda, você tinha razão. A casa é linda e sinto que vai dar tudo certo aqui. Beijos”

    E com um sorriso esperançoso, enviou a mensagem para o celular da prima.
    Passou algum tempo até que os rapazes terminassem de colocar tudo dentro da nova casa. Mas depois que isso aconteceu, os três entraram e passaram a discutir a sobre a posição de cada objeto em cada cômodo. A sala era um cômodo grande e com uma grande janela para o jardim. Lúcia achava que o jogo de sofá deveria ficar contra a janela, enquanto Mariano julgava melhor que ficassem perto da mesma. A cozinha também era espaçosa, como exigiu Lúcia. Era muito branca e na copa, tinha uma mesa redonda para refeições. Apenas o banheiro era um pouco pequeno segundo Lúcia, o que gerou um mal estar entre o casal, que logo foi dissipado. Enfim chegaram aos quartos. O do casal era grande e com vista para o quintal dos fundos, que não era muito grande e certamente ia servir como área de serviço. Enfim chegaram ao quarto de Mel. Era uma suíte no tamanho exato para uma menina de 15 anos. Tinha um papel de parede floral suave, e um aspecto muito calmo.
    -Uau! Adorei o quarto pai. Mas será que vai caber tudo aqui dentro? Sei lá...não tenho muita noção dessas coisas...
    -Vai sim! Vai caber tudo direitinho.-respondeu prontamente Lúcia. E a gente tem que matricular você na escola nova, filha.
    -Ainda temos algumas semanas, mãe. –disse Mel, num tom que mostrava que não era sobre a escola que ela estava a fim de falar naquele momento.- Mas pai, tô assustada. Como você conseguiu dinheiro pra uma casa dessas? Que negócios são esses que antes de você ser efetivado já te dá condições de comprar um imóvel desses?- perguntou a menina sem entender.
    -É um empreendimento novo, tive um bom adiantamento. E como já disse financiei a casa... Agora, vamos comer alguma coisa e dormir. Estou muito cansado.-disse ele, num tom de quem coloca um ponto final em um assunto que não o está agradando.
    -Vamos sim. Vou pegar alguns colchonetes e arrumar pra gente. –disse Lúcia.
    -Tá bom. Nossa, também tô muito cansada.
E os três saíram do quarto e fecharam a porta. Em seguida, se dirigiram à cozinha, onde havia umas bolsas certamente com comida encomendada por Mariano. Enquanto a menina comia faminta, os pais conversavam em tom baixo perto de uma das janelas.
    -Você acha que ela não percebeu nada? –perguntou Mariano curioso.
    -Creio que não. Não sei se foi uma boa idéia sua a gente vir pra uma casa tão bonita assim, ela pode ficar desconfiada. Mas até agora, ela só ta impressionada com a mudança.
    -Acho que essa casa bonita e o novo colégio vão desviar a atenção dela. Ainda bem que conseguimos sair de Minas em tempo. Já estavam em direção à pista certa.
    -É, mas mais uma vez não conseguiram e nunca vão conseguir o que querem.- respondeu Lúcia, com desdém na voz.
    -Creio que em uma cidade enorme como essa a chance de sermos encontrados diminui bastante...
    -Pai! Mãe! Vocês não vão comer??? Tá esfriando!- gritou Mel, interrompendo a conversa dos pais, sem nem imaginar sobre o que conversavam.
    -Ah, sim. Já estamos indo! –gritou a mãe, acalmando os ânimos da menina. Depois terminamos este assunto.-disse Lúcia baixinho ao marido.
    Mariano fez sinal afirmativo com a cabeça e os dois seguiram para a mesa na copa. Indo em direção à filha, Lúcia tinha uma expressão de desagrado e disse:
    -Filha, tome um banho antes de dormir. Seu cabelo está horrendo!-disse ela, passando a mão por entre os cabelos castanhos da filha, que iam até a altura dos ombros.
    -Que isso, mãe. Não acho que esteja tão ruim assim, e aliás, como vamos achar xampu nessa bagunça toda? –respondeu a menina.
    -Eu separei as coisas mais urgentes em uma caixa. E além do mais, agora estamos em São Paulo, não dá mais pra gente andar por aí desleixados como antes.
    -Ok, mãe.- concordou a menina não muito satisfeita.
    E então Lúcia sentou-se na mesa junto da filha e do marido, que trocou um olhar com a esposa de que sabia o porque e aprovava o fato de ela ter mandado a menina para o banho. Os três jantaram. Logo após Mel foi tomar o banho, praticamente obrigada por Lúcia. Durante o banho da menina, os pais tiveram uma conversa impaciente no jardim. Ora demonstravam aflição e quase alteravam o tom de voz um com o outro, ora demonstravam alívio e pareciam muito felizes com a nova casa. Assim que a menina apareceu no jardim de banho tomado, a conversa cessou e automaticamente todos entraram em casa. Lúcia arrumou os colchonetes ajudada pela filha, que logo que encostou a cabeça no travesseiro e dormiu. Então os pais tomaram seus respectivos banhos e dormiram também. Antes da meia noite, não havia mais ninguém acordado na casa da família de Mel.

05.12.07

A História Contada Sem Nome




Ano 1


Capítulo 1:

    Era mais um daqueles dias quentes de Janeiro. Saindo de uma casa pequena, porém muito bem conservada, estava uma garota com uma aparência não muito contente. Logo atrás dela, vinha uma mulher de aparência jovial, acompanhada por quatro rapazes que vinham carregando caixotes aparentemente pesados, e se encaminhavam ao caminhão de mudanças estacionado logo ali em frente.
    -Coloquem com cuidado, por favor! Tem objetos que quebram nestas caixas. Mel, minha filha anime-se! –disse virando-se para a menina-. Não é a primeira vez que mudamos de cidade. Vai ser fácil pra você, já sabe como é!
    Mas parece que as palavras da mãe não surtiram o efeito esperado.
    -Mãe, eu não consigo criar raízes em lugar nenhum. Logo que estou fazendo amizades, já tenho que me mudar de novo!
    -É o emprego do seu pai que faz isso com a gente, filha. E não podemos reclamar por que ele está ganhando muito bem! E garanto que São Paulo vai fazer bem pra você!
    -Tomara... Tudo bem que vou ter que fazer amizades tudo de novo, como sempre. -concluiu a menina em tom irônico- Espero que a gente fique muito tempo por lá dessa vez e...! Mãe!!!
    Lúcia, mãe de Mel já estava a alguns metros de distância coordenando o trabalho dos rapazes e havia deixado a filha falando sozinha. Em sua cabeça, Mel tinha um misto de expectativa e tristeza. A primeira, por morar em uma cidade global como São Paulo e em conhecer novas pessoas, e a segunda, por ter que mais uma vez mudar de escola e deixar seus amigos a custo conquistados, para trás. De repente, o celular dela toca. Aparece enfim um motivo de alegria para aquele momento tão conturbado na vida de Mel: no identificador de chamadas ela vê que quem está ligando é Fernanda, prima que mora no Sul e que é sua grande amiga e confidente. Feliz, com a possibilidade de dividir com alguém tamanha frustração, ela atente ao celular.
    -Oi, Nanda! Que bom que você ligou!
    -Claro que eu ia ligar, prima! Sabia que você ia estar super nervosa com mais uma mudança né...-disse a menina, expressando sua preocupação na voz.
    -Ah sim, estou! Dessa vez é diferente por que é São Paulo, né! Nunca morei numa cidade tão grande antes. Tô com medo de não fazer amigos, de dar tudo errado...
    -Calma! Não fica sofrendo por antecipação, vai dar tudo certo, sua boba!!! Você vai ver, rapidinho vai conhecer gente nova!
    -Assim espero. –respondeu a menina, num tom pouco esperançoso.
    -E além do mais, você vai estudar em um colégio excelente! Vai fazer um ótimo Ensino Médio e passar com certeza numa federal!
    -É, esse é o lado bom! Vou ter uma oportunidade de ouro estudando nesse colégio. -concordou a menina, ficando um pouco mais entusiasmada.
    -Então...tá fazendo tempestade em copo d’água. Se eu pudesse tava aí com você, mas sabe como é, né. Muito longe...
    -Eu entendo, Fernanda! E...- Nessa hora, o barulho feito pelos rapazes cessou e eles estavam fechando as portas traseiras. Mais que depressa, Lúcia fez sinal para que Mel desligasse o celular e entrasse no carro.
    -...tenho que desligar, Fê! Assim que chegar lá mando uma mensagem pro seu celular! Beijos prima!
    -Beijos, Mel! E Boa Sorte!
    -Valeu!!! Tchau!
    A menina desligou o celular e foi em direção à sua mãe.
    -Vamos, Mel! Seu pai já está lá esperando por nós! A casa deve estar pronta pra receber os móveis e a viagem vai ser longa. Entra logo no carro!
    -Ok.
    E as duas entraram no automóvel.
    -Mãe, o pai não explicou direito por que estamos mudando desta vez. Ele falou em um novo investimento lá em Sampa, mas eu achei muito vago...
    -Ah, Mel, são as chateações de sempre que seu pai encontra no trabalho. Dessa vez o empreendimento era bom, o salário melhor ainda, ou seja, uma proposta irrecusável. -respondeu Luísa, aparentemente nervosa, passando a chave e ligando o carro.
    -Tá, mas pelo o que eu sei ele ganha bem aqui também. Será que vale a pena toda essa mudança se o aumento nem vai ser lá grandes coisas...aaaaaaaaai, mãe..não precisa arrancar desse jeito...- Lúcia, tinha dado uma arrancada tão forte no motor, que Mel, que não terminara de colocar o cinto de segurança foi pra frente e voltou, batendo a cabeça no banco.
    -Desculpa, filha. É que eu estou com a cabeça cheia de coisas...e espero que a senhorita tenha deixado um casaco acessível, pois a viagem é longa e com esse tempo doido, pode esfriar mais tarde.-concluiu ela, mudando de assunto.
    -Ah, sim. Está ali no banco de trás. E antes que você pergunte, era a Fernanda no celular. Ligou pra saber se estava tudo bem.
    -Que bom! Fernanda é um boa menina! Espero que você faça amizade com pessoas como ela.
    E dali em diante ficaram sem assunto durante quase toda a viagem, exceto nas paradas para lanchar ou ir ao banheiro, e em relação à música alta que a filha insistia em colocar no rádio do carro, quando Lúcia dava aquela bronca, dizendo que já estava sem paciência para músicas adolescentes naquele momento. E assim seguiram de Uberaba até São Paulo.