
Ano 1
Capítulo 1:
Era mais um daqueles dias quentes de Janeiro. Saindo de uma casa pequena, porém muito bem conservada, estava uma garota com uma aparência não muito contente. Logo atrás dela, vinha uma mulher de aparência jovial, acompanhada por quatro rapazes que vinham carregando caixotes aparentemente pesados, e se encaminhavam ao caminhão de mudanças estacionado logo ali em frente.
-Coloquem com cuidado, por favor! Tem objetos que quebram nestas caixas. Mel, minha filha anime-se! –disse virando-se para a menina-. Não é a primeira vez que mudamos de cidade. Vai ser fácil pra você, já sabe como é!
Mas parece que as palavras da mãe não surtiram o efeito esperado.
-Mãe, eu não consigo criar raízes em lugar nenhum. Logo que estou fazendo amizades, já tenho que me mudar de novo!
-É o emprego do seu pai que faz isso com a gente, filha. E não podemos reclamar por que ele está ganhando muito bem! E garanto que São Paulo vai fazer bem pra você!
-Tomara... Tudo bem que vou ter que fazer amizades tudo de novo, como sempre. -concluiu a menina em tom irônico- Espero que a gente fique muito tempo por lá dessa vez e...! Mãe!!!
Lúcia, mãe de Mel já estava a alguns metros de distância coordenando o trabalho dos rapazes e havia deixado a filha falando sozinha. Em sua cabeça, Mel tinha um misto de expectativa e tristeza. A primeira, por morar em uma cidade global como São Paulo e em conhecer novas pessoas, e a segunda, por ter que mais uma vez mudar de escola e deixar seus amigos a custo conquistados, para trás. De repente, o celular dela toca. Aparece enfim um motivo de alegria para aquele momento tão conturbado na vida de Mel: no identificador de chamadas ela vê que quem está ligando é Fernanda, prima que mora no Sul e que é sua grande amiga e confidente. Feliz, com a possibilidade de dividir com alguém tamanha frustração, ela atente ao celular.
-Oi, Nanda! Que bom que você ligou!
-Claro que eu ia ligar, prima! Sabia que você ia estar super nervosa com mais uma mudança né...-disse a menina, expressando sua preocupação na voz.
-Ah sim, estou! Dessa vez é diferente por que é São Paulo, né! Nunca morei numa cidade tão grande antes. Tô com medo de não fazer amigos, de dar tudo errado...
-Calma! Não fica sofrendo por antecipação, vai dar tudo certo, sua boba!!! Você vai ver, rapidinho vai conhecer gente nova!
-Assim espero. –respondeu a menina, num tom pouco esperançoso.
-E além do mais, você vai estudar em um colégio excelente! Vai fazer um ótimo Ensino Médio e passar com certeza numa federal!
-É, esse é o lado bom! Vou ter uma oportunidade de ouro estudando nesse colégio. -concordou a menina, ficando um pouco mais entusiasmada.
-Então...tá fazendo tempestade em copo d’água. Se eu pudesse tava aí com você, mas sabe como é, né. Muito longe...
-Eu entendo, Fernanda! E...- Nessa hora, o barulho feito pelos rapazes cessou e eles estavam fechando as portas traseiras. Mais que depressa, Lúcia fez sinal para que Mel desligasse o celular e entrasse no carro.
-...tenho que desligar, Fê! Assim que chegar lá mando uma mensagem pro seu celular! Beijos prima!
-Beijos, Mel! E Boa Sorte!
-Valeu!!! Tchau!
A menina desligou o celular e foi em direção à sua mãe.
-Vamos, Mel! Seu pai já está lá esperando por nós! A casa deve estar pronta pra receber os móveis e a viagem vai ser longa. Entra logo no carro!
-Ok.
E as duas entraram no automóvel.
-Mãe, o pai não explicou direito por que estamos mudando desta vez. Ele falou em um novo investimento lá em Sampa, mas eu achei muito vago...
-Ah, Mel, são as chateações de sempre que seu pai encontra no trabalho. Dessa vez o empreendimento era bom, o salário melhor ainda, ou seja, uma proposta irrecusável. -respondeu Luísa, aparentemente nervosa, passando a chave e ligando o carro.
-Tá, mas pelo o que eu sei ele ganha bem aqui também. Será que vale a pena toda essa mudança se o aumento nem vai ser lá grandes coisas...aaaaaaaaai, mãe..não precisa arrancar desse jeito...- Lúcia, tinha dado uma arrancada tão forte no motor, que Mel, que não terminara de colocar o cinto de segurança foi pra frente e voltou, batendo a cabeça no banco.
-Desculpa, filha. É que eu estou com a cabeça cheia de coisas...e espero que a senhorita tenha deixado um casaco acessível, pois a viagem é longa e com esse tempo doido, pode esfriar mais tarde.-concluiu ela, mudando de assunto.
-Ah, sim. Está ali no banco de trás. E antes que você pergunte, era a Fernanda no celular. Ligou pra saber se estava tudo bem.
-Que bom! Fernanda é um boa menina! Espero que você faça amizade com pessoas como ela.
E dali em diante ficaram sem assunto durante quase toda a viagem, exceto nas paradas para lanchar ou ir ao banheiro, e em relação à música alta que a filha insistia em colocar no rádio do carro, quando Lúcia dava aquela bronca, dizendo que já estava sem paciência para músicas adolescentes naquele momento. E assim seguiram de Uberaba até São Paulo.