Desde pequena tenho o hábito de observar as pessoas e me perguntar o que as motivam a agir de determinada maneira. Essa experiência de certa forma me foi muito valiosa, pois me desenvolveu a análise crítica e um certo espírito indagador sobre tudo e todos, mas por outro lado me trouxe uma certa melancolia, pois o fato de perceber coisas que a maioria das pessoas ao meu redor não percebiam me faziam sentir diferente e os demais também me julgavam dessa forma. Cresci e as coisas não mudaram: cada vez mais o espírito curioso, indagador e contestador se manifesta, e o fato de viver em uma sociedade em que em geral as pessoas não pensam, pois julgam mais fácil seguir a maioria (mesmo que ela preze pelo ruim, medíocre e obtuso) e se contentem com a própria realidade, por pior que ela seja foi se tornando pra mim uma prisão. E é de dentro dela que continuo com o meu binóculo observando tudo e todos. Apesar de não ser uma pessoa que possui muitos contatos e de não ter uma vida social ativa (aliás, prezo pela solidão e pelo individualismo), além de ter muito mais tato com a teoria do que com a prática, incrivelmente meus dogmas sempre se confirmam e no momento há um que me atormenta. Vivemos em um mundo totalmente paradoxal: ao mesmo tempo que o homem busca a verdade, o concreto, o real, ele também usa como base de julgamento o emocional, o imediato e o efêmero. Há vários exemplos dessa afirmação, mas o que mais me chama atenção diz respeito a algo que com o dia a dia corrido muitas pessoas deixam passar despercebido: a ditadura da aparência. Cada vez mais as pessoas buscam a realização pessoal nos bens materiais, na aceitação alheia e na posição social. Os relacionamentos se baseiam por interesse. Uma pessoa rica dificilmente entra em um relacionamento sem desconfiar do golpe do baú. Raramente um abraço apertado e um beijo na bochecha de um filho em um pai têm outro interesse senão o aumento na mesada, ou o novo modelo de celular. A TV está repleta de pessoas que estão lá não por talento, mas sim pela beleza ou por ter algum parente bem relacionado. Mas o que mais me preocupa não é isso, e sim outra coisa. Nunca fui de ter muitos relacionamentos amorosos; muito pelo contrário, sempre fui tímida e isso dificultava um pouco as coisas. Logo, não sou e nunca fui uma expert nisso, mas de uma coisa sempre tive certeza: no mundo das garotas existem as que se dão bem e sempre conseguem quem querem (ou seja, as garotas bonitas de corpo ou então ricas e bem arrumadas), as que se dão bem pela simpatia (ou seja, aquelas que não são tão bonitas mas que nunca estão sozinhas) e as barangas. Essas sim são a escória da ala feminina. Automaticamente repelidas pela maioria dos garotos, elas se escondem atrás dos livros (por que vocês acham que as CDF’s são esteriotipadas como feias e quase sempre, mal amadas?), da amiga popular (quem sabe assim lhe reste as sobras?) ou então têm fobia social. É como se ter nascido desprovida de beleza fosse um crime a se pagar por toda a vida. As que além de serem feias são gordinhas sofrem ainda mais, pois viram centro de referência, de piadas e de preconceito (pois para alguns, obesidade passa idéia de preguiça, fracasso e incompetência).Até na Literatura são discriminadas, pois sempre que a protagonista é rechonchuda, todos torcem que ela fique magra e linda , ou seja, todos esperam que ela se torne digna de um final feliz. Apesar de ser a favor da igualdade dos sexos, quando o assunto é relacionamento homens e mulheres ainda agem de forma diferente. Devido á educação machista, que obriga o homem a ter o instinto “pegador” desde as fraudas, eles são mais práticos, objetivos e frios. Principalmente na adolescência, procuram uma mulher bonita e atraente, para provar pra todos e pra si mesmo, que é capaz de ter o melhor produto. Confesso que me sinto mal com essa constatação: sempre gostei das coisas bem definidas e gosto de ter uma opinião formada sobre a maioria das coisas (mesmo que seja diferente de todos, é a minha opinião). Sempre fui certinha, correta, caseira. Sei até cozinhar e lavar roupa. Mas nessas horas me sinto impotente e sem chão: de que adianta ser tudo isso, se na hora H, o cara do qual estou a fim sempre escolhe a mais bonita? Eu lhe digo: NADA. Nessa hora, não há bom papo, auto estima, inteligência e nem bom humor que bastem: eles simplesmente escolhem a bonitona e você fica aí, sozinha chupando dedo. Dizem que os homens ficam com essas garotas só por curtição, e que na hora de namorar sério ou casar, procuram as certinhas. Mas eu pergunto: as certinhas só servem, pra casar e ter filhos? E o cinema no final de semana? E aquela balada que a cidade inteira vai e você não, por não ter companhia? E aquele passeio pra praia no final do ano? E aquela ida ao parque, ou ao zoológico? Já me perguntei se a melhor saída para se dar bem no amor seria deixar todo o meu lado intelectual de lado e viver um função da minha aparência: me matricular em uma academia, fazer uma dieta, mudar de estilo, enfim, lutar até o limite das minhas forças pra seguir aquele padrãzinho medíocre que faz as pessoas saírem na rua feito robôs, todos vestindo a roupa da novela e usando o corte de cabelo da moda. Me tornaria um a pessoa alienada, sendo assim um joguete na mão da mídia e da nossa sociedade hipócrita. E então quando chegasse o final de semana eu iria para o baile da moda, talvez até para uma daquelas “Chopadas” e aí sim, os garotos iam olhar pra mim e enfim, eu ia escolher o cara que mais me agradasse e ficaria com ele e não seria como antes. quando eu ficava com aquele que aparecesse e atendesse em parte às minhas expectativas. Seria a minha vez de dizer não pra aquele carinha que um dia riu de mim por que eu era criança demais, pra aquele que me deu o fora pela minha insegurança, pra aquele amigo que nunca viu em mim nada mais do que uma amiga e é claro, superar aquela amiga bonitona que sempre ficava com os caras que eu estava a fim. Aí sim eu seria uma pessoa feliz e realizada...até quando? Me pergunto se isso realmente me traria felicidade ou se eu me cansaria depois de “me vingar” de todos eles. Sinceramente, acho que não. Acho que me sentiria bem melhor se fizesse tudo isso, mas com um porém: se fosse para agradar a mim mesma, pra superar meus limites, enfim, ser digna da felicidade como uma heroína de uma história qualquer. Mas também não abriria mão da minha personalidade individualista e nem dos meus livros. Assim, talvez tivesse alguma chance de não ser trocada pela bonitona, e não seria uma encalhada esperando um homem que queira casar com uma mulher certinha. Sei que o correto disso tudo seria que todas nós fossemos admiradas pela nossa Inteligência, senso de humor, personalidade etc, mas infelizmente uma boca carnuda e uma cinturinha fina valem mais do que tudo isso. Tudo isso é muito frustrante e dá uma bofetada na auto estima de cada uma de nós. Mas creio que o problema não esteja em nós (quero e preciso crer nesse mantra), e sim no cara que escolhermos. Se ele só quer mulher estilo modelo ou capa de revista de mulher pelada a culpa é dele, que é um ser alienado e não sabe apreciar as qualidades femininas. Mas as vítimas somos nós E da sociedade que associa estado civil solteiro com incompetência afetiva. O que devemos tentar fazer, por mais difícil que seja é tentar preservar nossa personalidade acima de tudo. Saber o que queremos e o que merecemos. E se pra eles o máximo que podem conseguir é um rostinho bonitinho, são eles que devem rever seus conceitos e procurar algo mais durável.