Meu jeito, meu mundo

Esse blog é como um diário, serve pra expressar pensamentos, angústias, alegrias, tristezas e algumas peculiaridades.

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14.02.08

Capítulo 6

*Bom, perdi os capítulos 7 e 8 pq meu pc foi formatado, mas logo continuarei a história! Por enquanto, leiam os cap 5 e 6!

Capítulo 6
-O que deu em você pra falar todas aquelas mentiras, mãe?- indagou Mel assim que saíram da ante sala de espera antes da sala da diretora.
- Ah, Mel, não me faça perguntas óbvias!Quis passar uma imagem de menina bem criada e educacada...
-Mas acabou pagando o maior mico mentindo descaradamente. Desde quando meu sonho é estudar nessa escola, mãe? Isso foi idéia sua!—replicou a menina incrédula.
-Sim, mas a diretora não precisa saber disso.-respondeu a mãe corando um pouco.- E você deveria é me agradecer, pois agora tenho certeza de que tem uma boa imagem com a diretora.
-Ah, muito obrigada por inventar um monte de mentiras a meu respeito pra diretora...- nesse momento, elas cruzavam o portão de saída da escola, e ela via nitidamente de longe a menina com a qual havia conversado dentro da escola. Ela estava cercada por mais algumas pessoas além da amiga que a consolara, e parecia ser o centro das atenções.
-Fica quieta e entra logo no carro, Mel. Ainda temos que ir comprar seu uniforme e a lista de material. Vamos aproveitar e fazer isso de uma vez!-Lúcia falava com tanta avidez que nem percebia que a filha estava absorta olhando pro outro lado da rua e pensando intrigada “Como as pessoas gostam dela, ela sendo desse jeito?”
-Entra logo!- gritou a mãe, trazendo a filha de volta à realidade.
-Ah, sim mãe, desculpa.- disse a menina num tom calmo. Parece que aquela visão a fizera esquecer do que a mãe aprontara com ela perante a diretora.
Ela entrou no carro e as duas seguiram no trânsito conturbado ate a loja que vendia os uniformes, segundo o papel dado pela diretora. “Não quero nem ver esse uniforme...tomara que não seja que nem aqueles de novela mexicana”, pensou Mel, rindo e lembrando-se daqueles uniformes, com boina, gravata e saia rodada.
Quando elas entraram na loja, Mel se sentiu confusa e ao mesmo tempo admirada. Havia uniformes de todos os tipos, desde cozinheiro, doméstica e enfermeira, até os de garçons indo para os escolares. Lúcia adiantou-se e chegou até ao balcão, onde estava uma vendedora e lhe perguntou sobre o uniforme que procuravam. Ela logo as levou em direção a um conjunto de cabides onde eles estavam. Ela retirou alguns e mostrou para as duas. Não era nada espalhafatoso como Mel imaginara: o uniforme da escola era uma blusa amarela clara, com um grande brasão no lado direito do peito. Um pouco mais adiante estavam as calças padrão da escola, um jeans azul índigo.
-Até que é um uniforme bonitinho...-disse Mel, ao ver agora a calça e a blusa as escola juntas.
-Você vai experimentar Mel. A senhora tem blusa tamanho P e calça tamanho 40?- disse a mãe à vendedora.
-Ah, sim. São essas. –disse a vendedora, separando as peças.- Os vestiários estão ocupados no momento, é só esperar um pouco.
Enquanto esperava, ela via que o movimento realmente estava alto naquele dia. Havia pessoas de diferentes escolas , e até um homem procurando roupa de cozinheiro. A fila para os provadores realmente estava grande e ela ficou reparando nas pessoas que saiam de dentro deles até que uma em especial a chamou a atenção, pois destoava das restantes. Naquele momento saía dali uma menina de cabelos ondulados negros, da mesma cor dos olhos e branquinha. Ela era como todas as outras meninas ali, exceto pelo fato de estar usando um tênis All Star muito surrado, uma saia jeans muito desbotada e uma blusa de frio, apesar de estar um Sol escaldante lá fora. Além disso, seu cabelo era extremamente oleoso e estava um tanto desembaraçado. Ela carregava consigo uma mochila também parecendo ser bem velha. Ela tinha um olhar bem distante e parecia bem nervosa, como se os olhares das pessoas ao seu redor a chateassem. Naquela hora ela sentiu um misto de pena e surpresa por ver alguém que conseguisse se vestir tão mal. Nisso, o provador a sua frente ficou vazio e ela entrou. Esse era um dos momentos que ela menos gostava, pois teria que ver seu corpo por inteiro e com certeza sairia dali com o moral baixo. Não se achava gorda e nem era paranóica como a maioria, mas o fato de ainda não ter os seios desenvolvidos a incomodava muito. Tirou a roupa e colocou o uniforme e então constatou que ele não era tão ruim assim, exceto pela cor amarela,que ela não gostava muito. Ela ficou parada em frente ao espelho durante um tempo, comtemplando-se com aquele uniforme e imaginando que surpresas aquela escola a reservava. Quando a mãe a chamou do lado de fora, ela voltou si e logo colocou a roupa de antes.
-Ficou bom, filha?-perguntou Lúcia assim que ela saiu.
-Ah sim, gostei. A calça ficou um pouco apertada, mas até lá eu emagreço.- disse a menina rindo.
-Tudo bem então. Vou chamar a vendedora pra gente acertar tudo e ir logo embora.- replicou Lúcia.
A mãe chamou a vendedora e ela separou 2 blusas com manga e uma de Educação Física. A calça de Educação Física ainda estava em falta e elas precisariam voltar outro dia. Então elas se dirigiram ao caixa e Mel viu que aquela menina ainda continuava na fila. Parada na fila, ela podia observar melhor agora a menina que estava a 3 pessoas a sua frente. Ela realmente tinha um ar mal humorado e distante, e aparentava muito desleixo. Quando chegou a sua vez, a menina fez algo que a impressionou ainda mais: ela abriu a mochila e tirou uma lata e colocou sobre o balcão. Abriu e foi tirando dinheiro dela e Mel percebeu que havia muito mais moedas do que notas. A demora e o barulho foram grandes e muita gente na loja percebeu o que estava acontecendo. Após algum tempo a menina saiu da loja levando uma sacola, aparentemente envergonhada. Mel continuou na fila. Logo chegou a sua vez e então elas pagaram pelos uniformes e saíram em direção ao carro.
-Anda, Mel. Ainda temos o seu material pra comprar!

Capítulo 5

Capítulo 5
Quando Mel e Lúcia entraram na sala da diretoria, a impressão de imponência que a menina teve em relação ao colégio aumentou significativamente. A sala da diretoria era grande, espaçosa e com uma estante cheia de troféus. Nas paredes, fotos de antigos diretores e certificados de excelência. Alguns metros a seguir estava sentada uma senhora de aparência muito simpática expressando enorme satisfação em recebê-las. A diretora pediu que se acomodassem nas duas cadeiras que estavam em frente a sua escrivaninha, e logo iniciou o assunto.
-Bom dia! Eu sou Rosangela Barcelos, diretora da instituição- disse, trocando um aperto de mão com a mãe da aluna.
-Bom dia, diretora. Como o combinado, eu e minha filha Melissa viemos para a entrevista. –concluiu Lúcia animada.
-Ah, sim. Muito bom. E você mocinha, tudo bem?- disse, virando-se em direção à menina.
-Ah...tudo...tudo ótimo- respondeu Mel, mal disfarçando seu nervosismo.
-É...ela está um pouco nervosa diretora, mas é normal- disse Lúcia, interrompendo um abrir de boca da professora, que certamente era em relação ao nervosismo da garota.- Ela sempre sonhou em estudar nessa escola, desde pequena- neste instante Mel olhou para a mãe espantada com a mentira: há algumas semanas atrás ela nem tinha idéia da existência daquela escola- Então, parece estar realizando...um sonho- concluiu a mãe, expressando orgulho da filha.
“Como assim? Eu nunca havia ouvido falar nessa escola. Foi VOCÊ quem quis que eu estudasse aqui. Ficou louca?”, pensava ela naquela hora, quando a diretora novamente olhou pra ela e perguntou:
-Ah, é? Muito bom, Melissa! E como ficou sabendo sobre a nossa instituição?
-Através de amigos!- respondeu prontamente Lúcia, sem dar chances da menina responder, o que não foi nada mal pois ela não teria o que responder mesmo-. E de mim, que sempre admirei muito esta escola.
-Hum...bom sinal, não? Bom, então vamos direito a entrevista. –concluiu calma a diretora, mudando de assunto- A nossa escola como vejo que vocês já sabem é uma das mais tradicionais da cidade de São Paulo. O sistema de ensino e o material didático são muito bons, e o índice de aprovação no vestibular de nossos formandos sempre foram muito altos. Como vocês podem ver, temos uma estante com troféus –nisso Mel virou-se e observou melhor a estante: era realmente repleta de troféus de todos os tipos e tamanhos.- que foram conquistados pelos nossos alunos em competições inter escolares e também em disputas individuais. Recebemos também vários certificados, como o mais recente o de Melhor Corpo Docente.
Mel se sentia cada vez mais impressionada com o alto nível da escola- já sabia que era ótima, mas não imaginava encontrar uma sala cheia de troféus e certificados de excelência.
-A Escola oferece apenas o Ensino Médio, e todos os anos oferecemos 10 bolsas para os alunos do primeiro ano. Você participou do Processo Seletivo, Melissa?-perguntou a diretora.
-Não. É que mudamos recentemente pra cá. A gente é de Minas.
-Uhum. Mas não tem problemas, o processo seletivo é opcional. Bom as aulas ocorrem no período da manhã ou da tarde. As aulas são de Segunda a Sexta de 7h a 12h ou de 13h a 18h. Três vezes por semana você terá aulas a tarde, se for estudar de manhã, ou de manhã, se for aluna da tarde. Duas vezes por semana há aulas de práticas no Laboratório de Ciências e uma vez por semana Educação Física ou Produção de Texto, uma semana sim e outra não. Alguma dúvida?
-Não...mas, isso tudo é desde o primeiro ano?- perguntou a menina, assustada com tamanha carga horária da escola. Estudar de manhã, e ainda de tarde três vezes por semana? Parecia demais para ela.
-Sim. O objetivo do colégio é preparar vocês para o vestibular e até para a própria faculdade. Os alunos do primeiro ano geralmente estranham esse ritmo no primeiro trimestre, mas aos poucos vão se adaptando.- informou Carmem.
-Eu adorei o sistema de ensino- começou Lúcia entusiasmadamente- É muito bom ter aulas da laboratório, poucas pessoas têm essa oportunidade.
-É verdade. E nos dias em que tiver aulas no período da tarde a escola oferece almoço, mas você não é obrigada a almoçar aqui se quiser. Damos um intervalo entre uma aula e outra.
- Aham...-disse a menina, pesarosa.
-A nossa tesoureira já acertou com a senhora as formas de pagamento e o valor das parcelas? –perguntou a diretora à Lúcia.
-Sim, já estamos acertadas.
-Então...-continuou ela, tirando de uma das gavetas alguns papéis e mostrando-os à mãe da menina- essas são as regras de conduta da escola. Peço que vocês a leiam com mais calma em casa mas em as regras mais importantes são as seguintes: é proibido ao aluno fumar, consumir bebida alcoólica e namorar dentro das dependências da escola e fora dela enquanto estiver usando o uniforme da mesma. É proibido utilizar o laboratório e ao mesmo manusear objetos no mesmo sem a autorização e orientação de um professor. Ok?
-Sim- disse a menina, espantada agora com a disciplina aparentemente imposta pela escola.
-Então...também é proibido transitar pelo colégio sem o crachá que identifica a permissão do professor para tal ato...
Enquanto a diretora enumerava as inúmeras proibições, a ansiedade em Mel parecia no limite, pois agora estava conhecendo a parte real da nova escola: um centro de excelência, com uma carga horária extensa e cheio de disciplina. Será que teria tempo para fazer amigos nessa escola? Talvez pelo ritmo tão puxado da escola nem precisasse se preocupar em fazer amigos, pensou ironicamente.
-...e em caso da famosa cola, a pena mais leve dependendo do caso é a suspensão, podendo chegar até ao pedido de retirada do aluno das dependências da escola. No geral, as principais regras são essas. A menina pode praticar Educação Física normalmente?
-Sim, pode. Ela tem uma saúde de Ferro!- respondeu Lúcia orgulhosa, como se ainda estivesse falando de seu bebê.
-Então está tudo certo. Bom, agora gostaria de fazer algumas perguntas sobre a vida acadêmica da Melissa- disse a diretora, franzindo a testa num tom risonho (essa hora da entrevista devia realmente ser a mais delicada, pensou a menina). Bom, no geral, como são as suas notas?
Lúcia preparou-se para responder no lugar da menina, mas dessa vez ela chegou adiante, abrindo antes a boca e dizendo em alto e bom som.
-Até que são boas. De vez em quando tenho algumas dificuldades mas no geral são razoáveis- concluiu a menina num som de sinceridade.
-Ah, minha filha, sempre modesta!- retorquiu Lúcia.
A diretora lançou um sorriso amigável à mãe e voltou-se de novo para a menina.
-Quais são as matérias que você tem mais dificuldade?
-Bom, sei que no Ensino Médio entram matérias novas não é, mas até agora tenho tido mais dificuldade em Matemática- respondeu prontamente a menina, sendo mais uma vez mais rápida que a mãe. Seu nervosismo havia passado um pouco, em grande parte, pensou ela, pelo fato de estar conseguindo deter sua mãe e seus comentários para ela, inconvenientes.
-Sim,e você já fez algum tipo de reforço?
-Ela nunca precisou, sempre foi muito auto suficiente!- desta vez Lúcia vencera. Na sua cadeira Mel espumava de raiva: tudo bem que nunca havia feito aulas de reforço, mas essa história de auto suficiência pra ela era tão nova quando o fato de estar naquela escola.
-Muito bem, se você precisar, a escola conta com aulas de reforço nos Sábados. É só se inscrever, tudo bem?
-Sim, senhora.-respondeu a menina.
-Então, acho que a entrevista já chegou ao fim. A lista de material e os locais onde a senhora pode comprar os uniformes estão junto com o papel que lhe entreguei com as regras da escola. As aulas se iniciam na primeira semana de Fevereiro, ou seja, não falta muito, não é?
-Infelizmente- disse a menina num tom inaudível....
-Então nós, já vamos. Muito obrigada. –disse a mãe, que parecia estar desapontada com o final da entrevista.
-Não há de que! Esperamos você no primeiro dia de aula.
A menina retribuiu com um sorrisinho amigável, pensando no que diria à sua mãe assim que saíssem da sala da diretoria e então saíram, fechando a porta com cuidado.

30.12.07

A História Contada Sem Nome IV

Capítulo 4

       Mel, que já não se cabia mais de tanta ansiedade sentiu seus batimentos cardíacos acelerarem quando viu a frente da escola: era grande, imponente e com arquitetura do período colonial. Via-se de longe que era um colégio particular, pois era muito bem cuidado. A pintura era amarelo claro e as portas e janelas um tom dourado claro. Aparentava ter uns três andares e possuía um estacionamento. Será que seria feliz ou prisioneira naquele lugar? Será que morreria de tanto estudar ( pois a fama do colégio a fazia pensar exatamente isso)?
Desceram do carro, se identificaram ao porteiro e logo entraram, sendo encaminhadas a passar pela secretaria para chegarem a uma sala a qual esperariam pelo chamado da diretora. No trajeto, a menina se encantava mais com a imponência do lugar, que devido ao recesso, estava vazio. Enquanto se encaminhavam até a secretaria, Mel viu um aviso em um mural que chamou sua atenção:

PROCESSO SELETIVO PARA BOLSAS DE ESTUDOS
CANDIDADOS APROVADOS COM BOLSA INTEGRAL:

1º- Lídia Quintanilha Barbosa
2º- Karen Isabela Albuquerque Ramos de Andrade e Silva
3º- Robson Silveira Castro
4º- Evelyn Santos de Almeida Soares
5º- Camila de Oliveira

CANDIDATOS APROVADOS COM BOLSA PARCIAL (50%):

6º- Isabel Miranda Silva
7º -Carlos Eduardo Castro
8º-Matheus Pereira Souza
9º- Carla Cristina Maldonado de Castro
10º -Mariana Alencar Fagundes

-Mãe, olha! Teve prova pra bolsa de estudos! Por que você não me disse, eu ...
-Eu ouvi a respeito, mas a gente tava muito ocupado com a mudança, e quando a prova foi aplicada a gente ainda estava em Minas.
-Hum....-disse Mel, já pensando “nessa escola deve ter só nerd. Essa tal de Lídia deve ser um saco...”
Passaram pela secretaria e chegaram em uma sala branca em que havia pais e filhos esperando para serem chamados. Mel e sua mãe sentaram-se um pouco longe da porta, perto de duas meninas que pareciam conversar fervorosamente. Uma parecendo muito desapontada, enquanto outra parecia consolá-la. Mel sentou do lado de uma delas, e apesar de estarem tomado cuidado para não serem ouvidas, não foi possível não ouvir a conversa.
-Quem essa garota pensa que é pra roubar a MINHA vaga? Era pra EU ser a primeira e não ela!- disse a garota, espumando de raiva.
-Calma. Eu sei que você não gosta de perder, mas não precisa ficar assim. A prova foi realmente concorrida e você conseguiu ficar em segundo lugar, não basta?- disse a amiga em tom de consolo.
-Você já me conhece suficientemente bem pra saber que não me conformo em ser a primeira perdedora.
-Mas, você é muito inteligente e meu pai me disse que nem sempre o primeiro colocado em um processo seletivo é o melhor aluno da sala. Tenho certeza de que você vai ser a melhor.
-Disso também não tenho dúvida.- concluiu, dando uma pequena pausa no que dizia, e retornando segundos depois, parecendo ainda mais injuriada- E se essa tal de Lídia, ousar ao menos tentar atrapalhar meus projetos eu acabo com ela em dois tempos. Fui a primeira colocada em todas as provas pra bolsa que fiz, e justamente na escola em que escolhi estudar acontece isso. - concluiu a menina, ainda chocada.
-Mas, você não precisava dessa bolsa, precisava?- disse a amiga com cautela-. Quer dizer, você tem dinheiro pra estudar na escola que quiser, não precisa estudar de graça.
-Eu sei disso, mas se sou boa o suficiente pra ser bolsista, por que não ser uma? –concluiu a garota, persuasivamente.
Ouvindo essa conversa, Mel estarreceu-se. Se a primeira impressão que teve da escola foi a de uma garota prepotente reclamando por que não foi a primeira colocada no concurso de bolsas da escola, o que ela esperaria dos outros colegas?

-Marcela Charlotte Lima Silveira

Disse uma voz saindo da sala da diretora.
-Vou indo lá amiga, mas vê se melhora essa cara. Valeu por ter vindo comigo, mesmo a entrevista dos bolsistas sendo em outro dia.
-Tá bom, vai lá.
-Ok. Depois tenho que te contar a nova dieta que comecei hoje. Vamo lá mãe...
Depois de se despedir da amiga, a menina se uniu à mãe e juntas entraram na sala da diretora. Ficando agora sozinha do lado da menina, Mel sentiu um misto de indignação e nojo. Com tantas pessoas sem oportunidade, sem dinheiro pra estudar em uma escola tão boa, aquela garota mesmo sem precisar da bolsa estava reclamando em ter passado em segundo lugar. Nesse instante ela virou-se e o seu olhar encontrou com o da menina, que lhe deu um sorriso simpático, como se pra ela estivesse tudo perfeitamente bem. Olhando melhor, nem parecia a menina que há segundos atrás parecia um monstro, pois tinha um ar feliz e aconchegante. Ela era morena de cabelos castanhos e longos, olhos esverdeados e se vestia de um jeito um tanto quanto formal. Mel correspondeu o sorriso e logo a menina iniciou um assunto.
-Tudo bem? –disse a menina amigavelmente estendendo a mão.
-Sim. E você?- retribuiu Mel, apertando a mão da menina.
-Tudo. Essa escola é realmente boa e o ambiente parece muito amigável, não acha? O sistema de ensino é bem condensado e realmente prepara para o vestibular. Três primos meus estudaram aqui e passaram na federal direto. Os professores são muito bons, mas pra mim o professor Nestor de Matemática é o melhor, tem até doutorado na área. E você, escolheu a escola pela grande tradição que ela tem e pela evidente eficiência no sistema acadêmico?- concluiu a menina, não parecendo nem um pouco ofegante.
-Ah, sim. –respondeu a menina, ao mesmo tempo admirada com o conhecimento da menina e confusa com o bombardeio de palavras.- Parece ser mesmo muito boa. Queria ter participado do processo seletivo, mas não deu tempo. Você participou?- disse a menina, querendo testar até onde ia a dissimulação da garota, mas a pergunta pareceu não a ter abalado, pois ela respondeu entusiasmada.
-Ah sim, participei.-disse sorridente, como se aquilo pra ela fosse motivo de muito orgulho- Consegui a segunda colocação. Foi uma prova complexa que realmente exigia conhecimento em exatas e principalmente na área da Língua Portuguesa, como também nas outras matérias, porém em nível inferior. Estou muito ansiosa para o início das aulas, a matéria do primeiro ano é base em qualquer vestibular, não?
-Ahã....-disse Mel, novamente confusa com o novo bombardeio da menina.- Realmente ouvi dizer que o Ensino aqui é muito bom.
-Ah, sim. Temos aulas pela manhã e laboratório a tarde alguns dias da semana. Tem os projetos extras como esportes, teatro, coral, e no final do ano as Olimpíadas Escolares. É um colégio privilegiado. -concluiu a garota, parecendo feliz em saber de tantas informações.
-Olimpíadas Escolares? Nunca ouvi falar...-disse Mel, deixando finalmente transparecer sua falta de conhecimento sobre a escola.
-É um tipo de competição que engloba todas as matérias. Tem a colocação por área academica, colocação geral e individual. Os grupos vencedores participam das olimpíadas com as outras escolas.
-Ah...
Nisso, ouviu-se um ranger de porta e a menina que havia entrado saiu. A mulher novamente saiu e disse um novo nome:

-Melissa Andrada de Melo

-Vamos, Mel!- disse a mãe da menina, apressando-a.
-Bom, tenho que ir! A gente se vê na escola.- disse despedindo-se da menina.
-Sim, querida! Boa sorte!- retribuiu a menina com um grande sorriso.
Então levantou-se e foi em direção á sala da diretoria.

22.12.07

A História Contada Sem Nome III

Capítulo 3

Os dias se passaram, e foram totalmente ocupados com a arrumação da casa nova. Lúcia e Mariano coordenavam todo o trabalho enquanto Mel se ocupava da arrumação de seu novo quarto. Como a menina não gostava que arrumassem suas coisas por ela, ocupou os dias seguintes esvaziando caixas, dobrando roupas e escolhendo a melhor posição para seus móveis. Decidiu que o papel de parede floral permaneceria. Dispôs os móveis de maneira que eles ficassem junto das paredes, de forma a deixar espaço livre para circulação. Quando tinha um tempo livre, pensava na nova escola. Não sabia muitos detalhes, mas a mãe já havia dito que era uma escola muito boa e consequentemente, com um ritmo de estudos muito pesado. Será que as pessoas a esnobariam por ser nova na cidade? Será que só haveriam mauricinhos e patricinhas na escola? Ou então apenas nerds? Como não tinha um padrão definido sobre as escolas de São Paulo, pensamentos como esses iam e vinham em sua mente. Apesar de já ter freqüentado diversas escolas durante o Ensino Fundamental, devido às constantes mudanças de cidade, dessa vez era diferente. A escola devia ser grande e com muitos alunos, pensava. E isso a fazia sentir ainda mais insegura e ao mesmo tempo curiosa.
Após alguns dias, a casa enfim estava arrumada. Estava realmente muito bonita, com um aspecto limpo e muito bem cuidado. Apesar de não ser muito suntuosa, o fato de estar arrumada deixava a deixava com a impressão de ser um lugar grande e bastante confortável para três pessoas. Um dia durante o jantar, finalmente Lúcia voltou a falar sobre a nova escola com a filha:
-Mel, acorde cedo amanhã. Vamos na escola nova fazer sua matrícula.-disse a mãe, num tom um tanto quanto autoritário.
-Mas... por que eu preciso ir junto?- respondeu Mel, transmitindo insegurança na voz.
-Por que a diretora vai entrevistar você. Todos os alunos passam por uma entrevista antes de entrar nessa escola. -respondeu Lúcia, nem imaginando o crescente nervosismo que se instalara em sua filha naquele momento.
-Mas... você nem me disse nada..o quê eu tenho que falar? Que tipo de pergunta vão fazer? Por quê não me falou sobre isso antes?
-Não é nada demais, vão apenas perguntar como foi seu Ensino Fundamental, em quais matérias tem dificuldades, essas coisas...E vai ser até bom por que já vamos pegar a lista de material e comprar seu uniforme. Então, vamos sair daqui mais ou menos umas oito horas, entendeu?
-Mas mãe...tem que ser...-disse a menina, como alguém que quer dizer algo muito importante, mas não encontra as palavras-...não poderia ser...outro dia?
-Claro que não. As entrevistas são agendadas e não dá mais tempo de mudar.- disse a mãe num tom conclusivo.
-Então... tá bom.. -respondeu Mel, tristemente conformada em ter que acatar a ordem de sua mãe-. Pai, você vai com a gente?
Não, não vai dar. Tenho que revisar alguns documentos pro serviço, mas vou estar torcendo por você.-disse o pai sorridente.
-Tá...-aceitou Mel sem opção.- Já instalaram o telefone? E a Internet?
-Ainda não, nenhum dos dois. Devem instalar essa semana. Essa cidade é muito grande, demora mesmo.
-Ah, que pena...-lamentou Mel, vendo seus planos de ligar pra Fernanda e dividir sua angústia indo pro espaço.
Depois do jantar, a menina foi pro quarto e logo dormiu, evitando pensar no desastre que, segundo ela, seria o dia seguinte.
Na manhã do outro dia, acordou bem cedo e não conseguiu dormir mais, de tão ansiosa com a entrevista. Depois de algum tempo pensando em sua cama, levantou e tomou banho. Colocou uma roupa confortável e logo foi para a sala ver televisão, para a hora passar mais rápido. Assim que chegou, encontrou sua mãe ainda de pijamas indo para o banheiro e se espantando em ver a filha arrumada tão cedo. Enquanto Lúcia se arrumava, Mel assistia a televisão, trocando de canal compulsivamente e batendo o pé direito no chão, tentando extravasar tamanha ansiedade. Depois de algum tempo Lúcia chamou pela filha e logo foi tirar o carro da garagem. Vendo o semblante da filha assim que ela entrou no carro, disse:
-Mel, não precisa fazer essa cara. Não vai ser tão difícil como você ta pensando, e no final das contas vai ser melhor pra você conhecer a escola antes do primeiro dia de aula.- concluiu a mãe, tentando consolar a filha. Mas Mel não respondeu, tampouco se animou com o que a mãe lhe disse. Afinal, estava indo pro colégio novo despreparada psicologicamente e nem tinha conseguido falar com Fernanda, coisa que com certeza a teria acalmado. Depois de uns 45 minutos de um trânsito conturbado já nas primeiras horas do dia, finalmente chegaram à escola.

09.12.07

A História Contada Sem Nome II




Capítulo 2:

    Depois de algumas horas, as duas chegaram na nova casa em São Paulo. Certamente era bem maior e confortável do que a de antes, em Uberaba. Tinha um muro verde e um grande portão prateado que dava para a garagem. Á esquerda tinha uma porta também na cor cinza, que dava entrada para o jardim. Este era grande e a grama era muito bem cuidada. Tinha uma churrasqueira no muro de pedras do lado esquerdo e uma ducha no muro em frente. Logo adiante estava a casa: um pouco maior que a antiga, mas ideal para três pessoas viverem bem e com privacidade. A pintura era verde bebê e a porta principal e a janelas eram brancas. Enquanto as duas contemplavam o jardim, os rapazes entravam descarregando a mudança. Nisso, um homem de aparência um tanto quanto cansada, de estatura mediana, cabelo preto com alguns fios grisalhos apareceu à porta.
    -Mel! Lúcia! Enfim vocês chegaram!-disse o homem impaciente.
    -Mariano, a viagem foi longa. E como estão as coisas?- perguntou Lúcia, cumprimentando o marido com um beijo.
    -Está tudo limpo lá dentro, mas vai demorar alguns dias até tudo entrar no lugar! E você, mocinha? Como foi de viagem?- perguntou o pai, dando um forte abraço na filha, como se não a visse há meses.
    -Bem, pai. Mas que casa linda! Ganhou na mega sena e não nos contou, foi?-disse Mel, ainda maravilhada com a beleza do imóvel.
    -Não, não. A casa vai ser quitada em alguns anos. Devemos ficar aqui um bom tempo. Depois que os rapazes terminarem o serviço, vai lá conhecer seu quarto! Tenho certeza de que vai gostar!
    -Se o resto da casa for tão legal quanto o que eu estou vendo até agora, vou sim.
    -Mariano, você já tomou o seu remédio? Com o coração não se brinca! E não diga que não teve tempo e...
    -Calma, Lúcia! Já tomei hoje mais cedo enquanto...
E deixando os pais discutindo sobre o remédio pro coração de Mariano , Mel se afastou e digitou no seu celular:

“Nanda, você tinha razão. A casa é linda e sinto que vai dar tudo certo aqui. Beijos”

    E com um sorriso esperançoso, enviou a mensagem para o celular da prima.
    Passou algum tempo até que os rapazes terminassem de colocar tudo dentro da nova casa. Mas depois que isso aconteceu, os três entraram e passaram a discutir a sobre a posição de cada objeto em cada cômodo. A sala era um cômodo grande e com uma grande janela para o jardim. Lúcia achava que o jogo de sofá deveria ficar contra a janela, enquanto Mariano julgava melhor que ficassem perto da mesma. A cozinha também era espaçosa, como exigiu Lúcia. Era muito branca e na copa, tinha uma mesa redonda para refeições. Apenas o banheiro era um pouco pequeno segundo Lúcia, o que gerou um mal estar entre o casal, que logo foi dissipado. Enfim chegaram aos quartos. O do casal era grande e com vista para o quintal dos fundos, que não era muito grande e certamente ia servir como área de serviço. Enfim chegaram ao quarto de Mel. Era uma suíte no tamanho exato para uma menina de 15 anos. Tinha um papel de parede floral suave, e um aspecto muito calmo.
    -Uau! Adorei o quarto pai. Mas será que vai caber tudo aqui dentro? Sei lá...não tenho muita noção dessas coisas...
    -Vai sim! Vai caber tudo direitinho.-respondeu prontamente Lúcia. E a gente tem que matricular você na escola nova, filha.
    -Ainda temos algumas semanas, mãe. –disse Mel, num tom que mostrava que não era sobre a escola que ela estava a fim de falar naquele momento.- Mas pai, tô assustada. Como você conseguiu dinheiro pra uma casa dessas? Que negócios são esses que antes de você ser efetivado já te dá condições de comprar um imóvel desses?- perguntou a menina sem entender.
    -É um empreendimento novo, tive um bom adiantamento. E como já disse financiei a casa... Agora, vamos comer alguma coisa e dormir. Estou muito cansado.-disse ele, num tom de quem coloca um ponto final em um assunto que não o está agradando.
    -Vamos sim. Vou pegar alguns colchonetes e arrumar pra gente. –disse Lúcia.
    -Tá bom. Nossa, também tô muito cansada.
E os três saíram do quarto e fecharam a porta. Em seguida, se dirigiram à cozinha, onde havia umas bolsas certamente com comida encomendada por Mariano. Enquanto a menina comia faminta, os pais conversavam em tom baixo perto de uma das janelas.
    -Você acha que ela não percebeu nada? –perguntou Mariano curioso.
    -Creio que não. Não sei se foi uma boa idéia sua a gente vir pra uma casa tão bonita assim, ela pode ficar desconfiada. Mas até agora, ela só ta impressionada com a mudança.
    -Acho que essa casa bonita e o novo colégio vão desviar a atenção dela. Ainda bem que conseguimos sair de Minas em tempo. Já estavam em direção à pista certa.
    -É, mas mais uma vez não conseguiram e nunca vão conseguir o que querem.- respondeu Lúcia, com desdém na voz.
    -Creio que em uma cidade enorme como essa a chance de sermos encontrados diminui bastante...
    -Pai! Mãe! Vocês não vão comer??? Tá esfriando!- gritou Mel, interrompendo a conversa dos pais, sem nem imaginar sobre o que conversavam.
    -Ah, sim. Já estamos indo! –gritou a mãe, acalmando os ânimos da menina. Depois terminamos este assunto.-disse Lúcia baixinho ao marido.
    Mariano fez sinal afirmativo com a cabeça e os dois seguiram para a mesa na copa. Indo em direção à filha, Lúcia tinha uma expressão de desagrado e disse:
    -Filha, tome um banho antes de dormir. Seu cabelo está horrendo!-disse ela, passando a mão por entre os cabelos castanhos da filha, que iam até a altura dos ombros.
    -Que isso, mãe. Não acho que esteja tão ruim assim, e aliás, como vamos achar xampu nessa bagunça toda? –respondeu a menina.
    -Eu separei as coisas mais urgentes em uma caixa. E além do mais, agora estamos em São Paulo, não dá mais pra gente andar por aí desleixados como antes.
    -Ok, mãe.- concordou a menina não muito satisfeita.
    E então Lúcia sentou-se na mesa junto da filha e do marido, que trocou um olhar com a esposa de que sabia o porque e aprovava o fato de ela ter mandado a menina para o banho. Os três jantaram. Logo após Mel foi tomar o banho, praticamente obrigada por Lúcia. Durante o banho da menina, os pais tiveram uma conversa impaciente no jardim. Ora demonstravam aflição e quase alteravam o tom de voz um com o outro, ora demonstravam alívio e pareciam muito felizes com a nova casa. Assim que a menina apareceu no jardim de banho tomado, a conversa cessou e automaticamente todos entraram em casa. Lúcia arrumou os colchonetes ajudada pela filha, que logo que encostou a cabeça no travesseiro e dormiu. Então os pais tomaram seus respectivos banhos e dormiram também. Antes da meia noite, não havia mais ninguém acordado na casa da família de Mel.